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Introdução
O Conselho Nacional de Trânsito,
CONTRAN, instituiu a Resolução No. 80 em 19/11/88 que em
seu anexo 1, com um único artigo, 21 itens e 138 sub-itens, dispõe
sobre as exigências do Exame de Aptidão Física e Mental.
Nesta Resolução há determinações que
estabelecem padrões para a avaliação oftalmológica
que propiciam ao médico perito examinador a condição
legal e segura para a aprovação ou não dos candidatos.
Na avaliação oftalmológica são observados
seis itens:
1)A motilidade ocular, Intrínseca e Extrínseca;
2)A acuidade visual corrigida;
3)O campo visual com gráfico tipo Goldman;
4)A visão cromática;
5)A visão estereoscópica com a noção de profundidade;
6)O teste de ofuscamento e visão noturna.
A Expressão "Campo Visual" refere-se a toda a área
que é visível com os olhos fixados em determinado ponto,
isto é, o Campo Visual de um dos olhos de um determinado candidato
é a área passível de ser vista para a frente, para
as laterais direita e esquerda, p/cima e p/baixo, quando este candidato
mantém este olho que está sendo examinado, imóvel
em um ponto fixo, em uma linha reta horizontal paralela ao solo. Nos aparelhos
de exame de Campo Visual, a distância utilizada é similar,
c/pequenas variações entre os fabricantes, oscilando entre
30 a 40 cms, entre o olho e o ponto de fixação do olhar,
no centro da face interna da calota perimétrica, e é interessante
que seja usada a correção visual adequada à essa
distância.
O Campo Visual total de um candidato, em termos de lateralidade, será
ligeiramente menor que a soma dos Campos Visuais de cada olho, pois na
área frontal central haverá uma superposição
dos campos, a qual permitirá com a fusão binocular, a noção
estereoscópica de profundidade.
O aparelho de Campo Visual tradicional tipo Goldman e o computadorizado
Synemed modelo A 2344 trabalham com um gráfico c/isopteras até
140º na soma de áreas nasal e temporal para cada olho. Praticamente
todos os outros campimetros computadorizados trabalham unicamente c/a
chamada "tela de glaucoma" (que é um dos 10 programas
do A2344) e são específicos para o diagnóstico e
acompanhamento da importante patologia ocular, o glaucoma, sendo o A2344
usado também em várias outras patologias.
Ao observar uma luz de freio do carro à frente, o motorista poderá
notar um carro que se aproxima dele pela lateral. A sua visão periférica
permite que veja o movimento deste carro. O Campo Visual mede esta visão
lateral que é maior quando os dois olhos trabalham juntos e adequadamente.
O Campo Visual entretanto é reduzido com a presença do glaucoma.
O gráfico tipo Goldman, do aparelho Campímetro Computadorizado
"Synemed, Inc. Fieldmaster serial No. A2344", é muito
semelhante ao gráfico do perímetro manual, e a interpretação
torna-se então facilitada para quem já tem alguma experiência
com o aparelho tradicional. O objetivo de avaliar-se a isoptera 140º,
em um gráfico fácil de ser analisado, torna-se alcançado.
As folhas do gráfico são de papel térmico e os pontos
marcados ocorrem pelo apertar do "dispositivo-controle" manual.
Material e Métodos
A utilização do
aparelho Campímetro Computadorizado Synemed modelo A2344 requer
um investimento semelhante ao de qualquer outro Campímetro Computadorizado,
mas os outros são específicos para glaucoma, com isopteras
reduzidas. O Campímetro Manual hoje é raro de ser encontrado.
Os gráficos podem ser feitos por qualquer gráfica que trabalhe
com papel de impressão térmica.
O método utilizado para o exame é:
O paciente ao ser colocado na posição para o exame, ao fitar
o ponto central determinado, um feixe de infravermelho fará a "ligação"
entre o olho à examinar e o ponto central. Caso o candidato mude
o olhar, o computador interromperá o processo do exame e exibirá
um sinal sonoro de advertência. Os pontos que serão apresentados
na face interna da calota perimétrica serão exibidos em
intervalos que podem ser regulados de 0,3 a 3,7 segundos com uma duração
de apresentação de 0,2 a 3,6 segundos, de forma aleatória
e em côr a ser determinada pela Técnica responsável
pelo exame no aparelho, cor esta a ser escolhida entre branca, vermelha,
amarela, verde ou azul, de acordo com o caso clínico.
A programação do aparelho poderá dar ênfase
à sua Totalidade, full, ou especificamente à Contorno esquerdo;
Contorno direito; Área central; 30º graus; Periférica
esquerda; Periférica direita; Tela de glaucoma; Meridiano vertical;
Área centro-cecal e finalmente Mácula, em um total de dez
programas. O número de pontos apresentados são 355 e concluído
o exame, o aparelho automaticamente reapresentará os pontos não
marcados para confirmar que realmente aqueles pontos não foram
vistos e consequentemente não assinalados, ou se o paciente falhou
ao não apertar o dispositivo, tendo então uma segunda oportunidade.
Um exame completo de ambos os olhos, incluindo o intervalo de troca de
olhos, dura aproximadamente 10 minutos, e então estes exames são
programados de 15 em 15 ou 20 em 20 minutos de acordo com a demanda de
pacientes.
Recomendações
para a realização de exame de Campo Visual:
Existem vários cuidados que se deve ter para a certeza de se estar
fazendo o exame de Campo Visual o mais exato possível.
a) Deve-se estar bem descansado. Caso esteja cansado ou doente, pergunte
ao seu oftalmologista se há possibilidade do teste ser adiado.
(Campímetro manual).
b) Deve-se estar bem acomodado junto ao Campímetro, da forma a
mais confortável possível. O teste poderá demorar
de 10 (Campímetro computadorizado) a 45 minutos (Campímetro
manual) para cada olho, portanto o conforto é importante. É
interessante informar ao técnico que está realizando o teste,
se a posição estiver desconfortável ou se o apoio
para o queixo estiver alto demais.
c) O examinando deverá fixar o olho na luz que está à
sua frente. A cada posição da luz durante o teste corresponderá
um local determinado da retina. Se não olhar para os lados procurando
a luz (Campímetro manual), o resultado do exame do Campo Visual
será mais preciso, e o oftalmologista poderá determinar
com maior exatidão os locais e a severidade das lesões das
vias ópticas.
d) Deve-se avisar à pessoa que está realizando o exame,
caso seja necessário interromper o teste para coçar o nariz,
tossir, ou descansar. (Campimetria manual).
e) Não é motivo de preocupação se não
vir todas as luzes. Em cada teste haverá luzes que não podem
ser vistas mesmo por pessoas com visão normal.
Resultados
Quando o oftalmologista avalia
o resultado do mapeamento de um Campo Visual, ele estará observando
as áreas que são sensíveis à luz. A melhor
maneira de determinar a sensibilidade de uma retina é compará-la
com a de um olho normal.
Algumas áreas do Campo Visual são mais afetadas pelo glaucoma.
Estas podem auxiliar o oftalmologista a diagnosticar o glaucoma e iniciar
rapidamente o tratamento. Caso exista o glaucoma, e caso haja alguma perda
de Campo Visual, o portador será acompanhado através de
vários exames, para determinar se a doença está estabilizada
ou se a perda visual está aumentando, e caso haja aumento da perda
de campo visual, o portador necessitará de tratamento adicional.
O intervalo de tempo entre os exames de Campo Visual dependerá
de vários fatores diferentes, e quem melhor poderá determinar
isso é o oftalmologista.
Exames freqüentes são muito importantes para o acompanhamento
adequado do glaucoma. (Semestrais ou anuais, dependendo do caso).
Como muitas das lesões que afetam as vias ópticas e produzem
defeitos no campo visual são de natureza vascular, é necessário
possuir-se alguns conhecimentos sobre a irrigação sangüínea
dessas vias e as relações anatômicas das artérias
e veias com os feixes de fibras nervosas.
Os transtornos circulatórios podem afetar as vias ópticas
de forma direta ou indireta. Uma hemorragia ou um infarto isquêmico
no lobo occipital pode provocar uma hemianopsia homônima total ou
um pequeno escotoma hemianóptico homônimo, de acordo com
o seu tamanho e localização. Um tumor na mesma área
pode produzir a perda do campo visual, em parte pela compressão
direta sobre os feixes das fibras nervosas, mas sobretudo pela interferência
na irrigação sangüínea do córtex occiptal.
Nos aneurismas do polígono de Willis, os vasos sangüíneos
podem até chegar a comprimir as fibras ópticas.
Em geral, as lesões vasculares podem ser localizadas com muita
exatidão devido aos defeitos que produzem no Campo Visual.
Qualquer opacidade dos meios transparentes do olho produz uma redução
na visualização de um objeto visto e a iluminação
deve ser aumentada adequadamente para se obter um resultado mais preciso,
como acontece por exemplo com a catarata, isto é claro em se tratando
de avaliação médica, mas para o trânsito a
iluminação do interior da calota perimétrica e a
iluminação do estímulo não deverão
ser alterados, para averiguar-se, nas condições normais,
a capacidade visual apresentada no momento pelo examinando.
As patologias corneanas, principalmente o ceratocone, as lesões
do nervo óptico, as retinopatias hipertensivas e diabéticas
também provocam alterações na campimetria nos casos
mais severos, assim como as lesões do fundo de olho como a maculopatia
serosa central e a doença macular relacionada à idade-DMRI.
O Campo Visual normal pode ser considerado como constituído de
duas partes: A primeira, compreendida desde a fixação até
a isoptera 30 graus, representa o Campo Visual Central. A segunda, o chamado
Campo Visual periférico, abrange o restante do Campo Visual.
Conclusões
O Campo Visual é dividido
em quatro quadrantes, dividido por uma linha horizontal e outra vertical,
passando ambas pelo ponto de fixação.
As metades superior e inferior são praticamente quase iguais em
tamanho, mas as metades nasal e temporal são bastante diferentes,
devido à posição excêntrica do ponto de fixação,
sendo maior a metade temporal.
Para a perícia médica de trânsito, quando o Campo
Visual é solicitado, a isoptera exigida é a 140 graus, considerada
excelente para os casos de visão monocular.
Em nossas observações, vários motoristas com visão
20/30 em ambos os olhos, ou com um dos olhos acima e o outro pouco abaixo
deste limite informado, apresentam ao exame de Campo Visual isoptera 130,
sem um comprometimento da função visual da percepção
lateral ao dirigir, talvez até por compensação pelos
movimentos rotatórios de lateralidade do pescoço. Segundo
Harrington (Campos Visuales, 1973), o tamanho real de uma determinada
isoptera tem menos importância que a sua forma, especialmente em
relação a outras isopteras, com a acuidade visual em limites
normais.
É importante ao perito médico de trânsito ter conhecimento,
apesar da exigência da isoptera visual em 140 graus, que o Campo
Visual variará em um indivíduo de acordo com a sua idade,
quantidade de exames feitos anteriormente (Goldman manual), estado de
saúde, cansaço geral no momento do exame, tamanho das pupilas,
iluminação da sala de exame, proporcionalidade entre a luz
da calota perimétrica e a intensidade do estímulo luminoso,
a capacidade de concentração do indivíduo na tarefa
e sua rapidez de resposta no apertar do dispositivo aos estímulos
luminosos apresentados durante o procedimento.
Os Campos Visuais anormais podem apresentar reduções periféricas
ou contrações, depressões, hemianopsias, quadrantanopsias,
escotomas, etc. (Pinheiro Dias - Campo Visual 2001).
É importante que o perito médico tenha conhecimento que
um Campo Visual poderá se apresentar c/falhas periféricas
e alguns escotomas atípicos durante determinadas fases de uma enfermidade,
a qual tratada exibirá melhoras, caso a situação
denotasse sofrimento temporário e não lesão definitiva.
O nistagmo compromete o exame pelo déficit da fixação
visual. A presença de uma leve inflamação intra-ocular,
uma neurite óptica temporária reversível, um glaucoma
incipiente sem tratamento, podem ser exemplos nos quais os resultados
dos exames prévios e posteriores à terapia específica
exibem sensíveis diferenças.
Infecções como as provocadas por toxoplasmose, sífilis,
tuberculose e citomegatovírus comprometem a visão, que por
sua vez altera o Campo Visual. Relevante para o perito médico lembrar,
ao se deparar com surdez e surdo-mudez, que várias síndromes
englobam esta deficiência em seus sinais e sintomas, como a retinopatia
pigmentar, progressiva e irreversivelmente incapacitante, mas de evolução
lenta, que no inicio poderá ser perceptível apenas pela
contração do Campo Visual e pela dificuldade de adaptar-se
à troca súbita de variação de luminosidade,
como por exemplo entrar ou sair de uma sala de projeção
cinematográfica com o filme em andamento.
Não deve o perito esquecer também que o usuário de
drogas e o alcool-dependente podem apresentar sérios danos, temporários
ou definitivos, de Campo Visual.
Entre os defeitos de refração, as incomuns "altas miopias
degenerativas malignas" são severamente incapacitantes, progressivas
e de prognóstico reservado.
Não deve o Perito Médico de Trânsito esquecer de perguntar
sempre ao examinando se ele faz uso contínuo de colírio
hipotensor para a terapia anti-glaucomatosa, a doença que provavelmente
mais cega seus portadores no mundo, e que evolue sempre com a restrição
gradativa do Campo Visual.
O Campo Visual apresenta-se comprometido também nas lesões
quiasmáticas e nas lesões do córtex cerebral.
Segundo Pinheiro Dias (perimetria Computadorizada, 1996), não só
o glaucoma, as retinopatias, as maculopatias (entre elas a causada pela
cloroquina), as vasculopatias, os tumores podem causar lesões com
defeito de Campo Visual, mas também as lesões decorrentes
dos traumatismos crânio-encefálicos por acidentes de trânsito
(TCE).
Assim sendo, torna-se indicado após o TCE, mesmo aparentemente
apresentando o examinando a acuidade visual dentro das normas do Código
de Trânsito Brasileiro, CTB, a realização do exame
de Campimetria Visual tipo Goldman, manual ou computadorizada, entre outros
exames específicos que se fizerem necessários.
O Campo Visual tipo Goldman Computadorizado é indicado, assim como
o Campímetro normal, para a pesquisa de perimetria visual de 140º
nos candidatos motoristas, exibindo ambos um gráfico simples, isoptera
140º, o computadorizado porém apresentando-se mais rápido
e preciso, e de mais fácil manejo.
Palavras Chaves
CAMPIMETRIA, GOLDMAN, ISOPTERA.
Comentários
Cabe uma indagação,
a ser respondida após avaliações minuciosas e criteriosas:
Qual motorista apresentaria menor risco de acidente, levando-se em consideração
o Campo Visual: Aquele monocular c/visão 20/25 e isoptera 140 ou
um outro, binocular, com 20/30 AO e isoptera 120 em cada olho?
Concluindo, a minha grande preocupação como oftalmologista
e cidadão, é saber que inúmeros motoristas possuidores
de acuidade visual 20/20 AO c/lentes corretivas (termo mais adequado que
corretoras, segundo Houaiss) e isoptera 140 em AO, dirigem por aí
diariamente SEM A CORREÇÃO, as vezes c/AV 20/80 ou menos,
pela falta dela.
São necessárias campanhas permanentes de Educação
para o Trânsito.
DR. WELLINGTON SANTOS
Médico Oftalmologista
Perito de Trânsito
Perito Judicial
Perito Médico
Médico do Trabalho
Administrador Hospitalar
Professor de Farmacologia
Professor de Auditoria em Sistemas de Saúde
Professor de Medicina de Tráfego
Mestre em Educação
Titular da Cadeira 38 de Academia Fluminense de Medicina
Bibliografia
1) HARRINGTON, D.O. Campos Visuales. Panamericana.
Buenos Aires. 1979.
2) DIAS, J.F.P. Perimetria Computadorizada.
Cultura Médica. Rio de Janeiro. 1996.
3) DIAS, J.F.P. ; INAMURA, P.M. Campo Visual.
2ª ed. Cultura Médica. Rio de Janeiro. 2001.
4) HOUAISS, A. Dicionário da Língua
Portuguesa, 1ª ed. Objetiva. Rio de Janeiro. 2001.
5) RIZZARDO, A. Comentários ao Código
de Trânsito Brasileiro. 3ª ed. Revista dos Tribunais.
São Paulo. 2001.
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